Realidade Feita de Papel

19 dezembro, 2009 por Adriana Jardim  
Categoria Jardim do Imaginário

o jornal papietagem Realidade Feita de Papel

Usando a técnica da papietagem, Adriana Jardim realiza a sua primeira mostra individual de esculturas retratando personagens comuns inspirados no cotidiano brasileiro e na cultura popular; peças ficam expostas no Museu Théo Brandão e prometem mexer com os sentimentos.

Cola, arame e papel, muito papel. É apenas disso que Adriana Jar­dim precisa para dar forma a um mundo todo seu; um uni­verso que, apesar de parecer comum, esconde a visão de uma artista bem particular. Seria o famoso olhar artístico, como muitos gostam de defi­nir? Parece que sim. E mais ainda: ao que tudo indica, ele está presente em todos os aspectos da vida da ala­goana. Afinal, como ela mesma diz, “já nasci assim, fazendo arte”.

Tanto que, apesar de psi­cóloga, resolveu envere­dar por um caminho um tanto diferente. A primeira descoberta foi a pintura. Há cerca de um ano, entretanto, ela conheceu outra paixão: a papie­tagem. De lá para cá, nunca mais parou de praticar a téc­nica. O resultado desse en­contro são as 33 esculturas da exposição Mundo de Papel, que entra em cartaz hoje, no Museu Théo Brandão/Ufal. A abertura acon­tece com um co­quetel, às 19h, com a apresentação do Coral Camerata Pró-Música de Alagoas.

No acervo da mostra, per­sonagens comuns inspirados no cotidiano brasileiro. Figu­ras como a mulher rendeira, o flanelinha, o vendedor de flores e a lavadeira não po­deriam faltar. Mas Adriana vai mais além: até padre Cí­cero e a escritora Clarice Lispector aparecem no repertó­rio. Na obra da artista, tam­bém estão presentes a imagi­nação e o lúdico, a exemplo da peça O Colecionador de Estrelas.

Tanta diversidade tem uma explicação. Adriana con­ta que teve liberdade para re­tratar o que quisesse. “Fiquei à vontade com relação à te­mática. Como estou experi­mentando, fiz de tudo um pouco. Aqui temos muita coisa regional, coisas do imaginário; está muito misto”, conta. Por suges­tão do museu, entretanto, ela decidiu valorizar a cul­tura nordestina. “Gostei muito, até porque São pes­soas que vejo na rua”, diz. Apesar de retratarem realidades diferentes, uma coisa é comum a todas as obras: a vivacidade. “Em todos os meus trabalhos, ressalto a alegria, a cor”, afirma a artista. A idéia dela, aliás, é despertar sentimentos únicos nas pessoas. “Acho que as peças podem provo­car não só alegria, mas até mesmo tristeza e outras emo­ções. Quero provocar sensa­ções variadas”, completa.

Além de conhecer a técni­ca, Adriana espera que o pú­blico reflita acerca das peças, descobrindo talentos desco­nhecidos e vontade de pro­duzir coisas novas. Apesar de experiente na área da pintu­ra – ela já realizou oito mos­tras -, essa é a primeira vez que a alagoana expõe as suas esculturas.

O convite feito pelo mu­seu foi recebido com surpre­sa. “Fiquei muito feliz e sa­tisfeita, mas não esperava nada disso, até porque esse é apenas o início da minha pro­dução”, afirma. E o pontapé inicial não poderia ser me­lhor: a curadoria de Mundo de Papel é de ninguém menos que Persivaldo Figueirôa, um dos artistas plásticos mais conceituados de Pernambuco.

Técnica foi aprendida com mestre Vilinba

Apesar de não parecer, a papietagem é uma técnica re­lativamente nova. Inspirada no papel machê, usado antiga­mente na China e na Europa, ela foi inventada, em 1912, pelo pintor Cubista Georges Braque, encantado com o método de colagem utilizado por Pablo Picasso. De lá pra cá, a técnica evoluiu bastante e se espalhou pelo mundo, tanto que chegou à vida de Adriana Jardim.

De certa forma, a arte de colar papéis sempre esteve presente em sua vida. Adepta do papel machê, a artista já fazia muitos trabalhos com essa antiga técnica, mas foi apenas no ano passado que ela conheceu a papietagem pro­priamente dita através das mãos experientes do mestre Vilinba, ganhador do Prêmio Gustavo Leite de melhor arte­são do ano em 2007.

Foi no próprio Museu Théo Brandão, em uma oficina, que a artista aprendeu a moldar esculturas usando arame, pa­pel e cola. “Resolvi tentar e, aos pouquinhos, começaram a sair as peças, cada vez me­lhores e cada vez mais do jeito que eu imaginava”, diz. Ela aproveita para explicar que o papel deve ser rasgado em pe­daços, e não cortado.

Adriana ainda decidiu ino­var. Além dos materiais tradi­cionais, utiliza outros objetos para dar mais veracidade às obras. “Gosto de aplicar teci­dos e outras coisas para tor­nar as peças ainda mais reais”, diz. Realidade, aliás, é uma das marcas registradas da ex­posição. Para o curador da ex­posição, Persivaldo Figueirôa, o Mundo de Papel criado por Adriana Jardim retrata “um mundo de sonhos, cores e for­mas. Real ou imaginário, trans­porta-nos às boas lembranças da infância e às antigas brin­cadeiras e faz referência à fé do povo nordestino”, comenta or­gulhoso.

Matéria O Jornal – 04 de novembro de 2008

SERVIÇO:
Exposição Mundo de Papel, de Adriana Jardim
Abertura hoje, às 19h, no Museu Théo Brandão/Ufal
Visitação: ale o dia 6 de dezembro, de terça a sexta, das 9h às 17h; aos sábados, das 14h às 17h
Entrada franca
Mais informações: (82)3221-2651

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